29 de outubro de 2012

Doce bailarina

Ano passado a editora Estronho, especializada em publicações de terror, lançou a proposta de uma coletânea intitulada Le Monde Bizarre. O concurso consistia que as pessoas enviassem seus contos com uma temática circense criada pela editora, e torcessem para que a criação fosse escolhida e integrasse o livro. Como adoro um concurso (apesar de nunca ter ganho nem em bingo) decidi participar, porém minha vida não quis quebrar os padrões e não escolheram meu conto. Foi a primeira escrita de terror que eu tentei produzir, não ficou magistral como as criações de H.P Lovecraft (é até uma heresia eu mencionar ele em comparação ao meu texto), mas relendo o conto hoje decidi publicar, pois quarta é Halloween e também porque acho incrível ver a evolução que quando decidimos investir em algo que acreditamos. O texto foi intitulado "Doce bailarina", não é muito grande na minha percepção e mostra meu amadorismo incentivado pela alma da Agatha Christie. Quem quiser ler na íntegra clica ali no Mais Informações. 



Doce Bailarina

Os passos desesperados esfacelavam a grama do solo, a pegajosa clorofila grudando entre os dedos de unhas pintadas, onde agora a terra e os pedaços da vegetação rasteira acumulavam-se embaixo. Os ruídos atrás dela aumentavam gradativamente. Ele estava chegando, era a única coisa que uma vozinha maligna ecoava em sua mente. O peitoral de ossos pequenos arquejava com força, as pupilas femininas semicerradas para não encarar os raios de sol de fronte que lhe queimava os olhos. Os passos se aproximavam.
- Você está me cansando, mocinha – berrou a voz masculina as suas costas, quase entediada com aquele esforço não programado. O coração da mulher saltou em seu peito, e uma ânsia de vômito eclodiu em sua garganta, fazendo-a curvar-se para frente, numa estocada brusca. Num ímpeto de angústia virou-se para trás, e aquilo que seus ouvidos haviam percebido, seus olhos constataram com certeza: ele estava chegando.
As imagens atordoantes que a velha cigana havia lhe descrito apoderaram-se de sua mente apavorada, e não havia outra saída, ela sabia disso desde que conseguira fugir, só adiou o inevitável. E a mulher correu, desviando-se e seguindo desembestada para a esquerda do terreno escarpado coberto de cascalhos.
O mágico Kranjkar parou durante alguns segundos, deliciosamente surpreendido pelo rumo que aquele imprevisto havia tomado. Continuou a perseguir sua fugitiva, mais pela diversão do “esporte” e para ver de perto a mulher atirando-se morro abaixo, sem sequer hesitar, e rolar pela colina íngreme tal qual uma boneca de trapos. Seu corpanzil frágil espatifou-se de encontro aos pedregulhos na encosta da elevação de terra; um líquido viscoso tingiu de vermelho a coloração arenosa onde a suicida caíra.

- Você já foi mais sensata, Aramburu – destilou venenosamente Kranjkar, lançando um olhar desgostoso dentro da tenda armada precariamente, onde uma gorda cigana estava sentada sob almofadas coloridas que jaziam atiradas no chão.
- Não requisite competência sendo que você próprio não a tem – Aramburu esbravejou, o corpo robusto levantando-se, utilizando como apoio o recosto de uma cadeira de madeira tosca. – O que falaremos para Monsieur Tissot?
O tom de apreensão na voz da cigana foi compartilhado pelo circense, que engoliu em seco ao pensar o que aconteceria nas próximas horas, quando ele e a cigana chegassem até onde o comandante do circo Le Monde Bizarre e o restante da trupe estavam acampados. Como o circo não poderia ficar mais de alguns dias em qualquer cidade, Serge Tissot havia enviado à experiente Aramburu e o sutil mágico para ir buscando sua nova aquisição em terras africanas, preparando a área em que o Le Monde Bizarre iria atrair o público local com seus surpreendentes espetáculos.
A noite caíra e os roncos cavernosos da cigana enchiam a pequena tenda em que ela dormira, e onde Kranjkar deveria igualmente descansar, contudo aqueles ruídos inflamavam sua irritação, que crescia em seu interior como labaredas de fogo a cada solavanco que produzia a garganta da velha.
Aramburu era um tipinho desprezível para Kranjkar, tola e cujas peripécias há muito haviam se perdido com a idade; até as antiquadas moedas de ouro que a cigana tinha no lugar das órbitas oculares, e que em sua infância encantavam o mágico, agora para ele pareciam desbotadas. As pálpebras enrugadas e murchas da idosa que pendiam molemente sob as moedas lhe causavam repulsa, e as impossibilidades resultantes da cegueira da velha enfureciam a personalidade jovem e altiva do homem. Irritado com aqueles roncos ele saiu, estendeu uma lona de circo no chão e dormiu sob o tecido desbotado, tendo como guardião de seus pensamentos monstruosos somente as inocentes estrelas do céu, que nada podiam fazer para impedi-lo.

O som dos abutres alvoroçados preenchia o céu nublado, os animais cada vez em maior quantidade desciam em voos rápidos até os pedregulhos na encosta do morro, a fim de abocanhar um pedaço que ainda restasse do esmigalhado corpo da mulher. Kranjkar franziu o nariz, enojado, imaginando o odor fétido que devia estar se acumulando na planície, com o cheiro de sangue dela misturado ao de podridão que acompanhava os pássaros negros em todos os lugares sucedendo a morte.
O mágico adentrou na abafada tenda onde um improvisado quarto e cozinha havia sido armado do modo mais precário possível. Uma fumaça intensa rodopiava envolta de uma panela borbulhante; sentada na frente da fogueira estava a cigana, cozinhando uma espécie de ensopado cujos legumes já mostravam há muito sinais de podridão.
- Estou indo até a cidade a cavalo – sibilou Kranjkar em um sussurro ligeiro, querendo se distanciar o mais rapidamente da mulher coberta por gotículas de suor que percorriam seu corpo flácido.
- Traga uma mais baixinha dessa vez – foi o pedido da cigana, que se ajoelhava no chão arenoso e mexia com os dedos de unhas compridas sua sopa pegajosa. - Baixinhas são mais encantadoras e fáceis de manusear.

Foi necessária poucas voltas pelas ruas até o mágico achar o que procurava: parou em frente a uma padaria, onde uma jovem escondia-se atrás de um balcão excessivamente alto para sua pouca estatura. Devia ter no máximo 18 anos, suas feições delicadas e juvenis demonstravam a inocência e beleza que o mágico procurava. Um sino soou quando Kranjkar adentrou no estabelecimento.
- Bom dia senhor, em que posso ser útil? – perguntou docilmente a mulher num inglês afetado.
- Gostaria de um refresco. Cavalguei até aqui durante vários minutos, e nunca imaginei o calor infernal que faz nessa terra.
- O senhor deveria tirar seu paletó – disse, enquanto servia limonada em um copo de vidro que havia colocado sob o balcão.
Kranjkar contentou-se em sorrir charmosamente e puxou com cuidado o punho de sua camisa larga, cobrindo por completo sua mão direita. Depois pegou o copo e bebeu seu conteúdo de um gole só, um barulhinho estranho sendo escutado quando o vidro entrou em contato com os dedos ocultos do mágico.
- Sou de um circo que está vindo visitar esses arredores, já ouviu falar do Le Monde Bizarre? Tenho certeza que o que você verá vai muito além de suas expectativas.
Definitivamente tudo que estava acontecendo ia muito além da imaginação limitada pela ingenuidade de Doveine. A jovem moça crescera naquela cidade e dali nunca havia saído. Agora ela estava viajando para fora de sua amada cidade, indo em direção a sabe-se lá onde, movendo-se dentro de um pequeno compartimento onde estava presa, chacoalhando a cada salto brusco daquela maldita carroça velha.
Lágrimas de desespero escorriam dos olhos claros de Doveine, que se amaldiçoava por ser tão tola a ponto de ir com um estranho para visitar um “circo”. E se ele a violentasse? Seu pai certamente morreria de desgosto. E se aquela cigana a matasse? Depois da dolorosa panelada que a velha transferiu na testa de Doveine, ela não duvidava disso. Talvez fosse melhor que a matassem logo. Ao menos ela não precisaria continuar naquela angústia infindável... Ai! Por que ela acompanhara aquele homem?
Horas se passaram e quando a dor em sua testa finalmente diminuiu, a moça conseguiu cochilar. Minutos depois uma claridade absurda a acordou. Ela percebeu que haviam aberto a tampa da caixa em que a prendiam e pode distinguir com um olhar embaçado pelo choro continuo um irônico céu limpo e glorioso. Tentou desprender-se das cordas grossas que lhe imobilizavam as mãos, porém a tentativa mais lhe causou dor do que surtiu efeito, sentiu o ardor do atrito da corda em sua pele queimar. Doveine soltou um suspiro sôfrego e voltou a cerrar os olhos.

- Estão falando do desaparecimento de duas jovens de Joanesburgo. Duas! O que aconteceu com a outra, Aramburu? – questionou friamente Monsieur Serge Tissot, em uma fúria explosiva que avermelhou seu rosto bem conservado.
- Pergunte a Kranjkar, senhor.
Serge Tissot virou-se para o mágico, que engoliu em seco. Olhou para a bengala branca do dono do grupo circense e lembrou-se da última vez que havia visto o Mestre usando tal objeto. O mágico mesmo que havia limpado o sangue que coagulara naquele cano maciço.
- A moça fugiu e suicidou-se depois atirando-se de um monte. Mas não acharão o corpo dela, porque os abutres comerão tudo. Eu mesmo vi os animais arrancando-lhe a tripas e brigando pela carne mais macia de suas coxas.
- E você acha que minha maior preocupação é se vão achar ou não os corpos? Somos um grupo de circo, não uma quadrilha assassina. Dei essa tarefa para Aramburu e você porque acreditei que sua sensibilidade seria benéfica, e não que você sairia deixando as mulheres se atirarem de penhascos. Faça o trabalho certo dessa vez – ordenou Serge Tissot, num tom de voz glacial que gelou os ossos de Kranjkar. Literalmente.
A planície em que a trupe circense estava armando suas tendas era um terreno amplo com poucas casas nos arredores, que de tão distantes pareciam pontinhos entrecortando a paisagem. Várias pessoas andavam de um lado para outro carregando ferros, levando lonas nos braços e arrastando pesados sacos de grãos pela areia do chão.
Kranjkar seguiu até uma pequena tenda rosa que já estava armada. Ali dentro Doveine jazia deitada em um colchão. O mágico encantou-se com a palidez doentia da moça, cuja pele agora parecia de porcelana e reluzia sob os raios solares que entravam a em filetes pelas pequenas aberturas na tenda. Doveine parecia ainda mais docilmente frágil encolhida sob o fino colchão. Kranjkar puxou uma cadeira e sentou-se em frente à moça. O ruído do objeto fez ela acordar.
- Por favor, me tire daqui, eu preciso voltar para a minha família – implorava a mulher, lágrimas rolando de seus olhos e pendendo em seus longos cílios.
- Você fica ainda mais bela quando chora, suas pupilas ficam mais cintilantes em meio a essa dramática melancolia.
- Vocês são uns anormais, excêntricos, não sei de quais profundezas do inferno vocês saíram. Um homem com três olhos apareceu aqui para vir me ver. Que tipo de brincadeira de mau gosto é essa? – choramingou Doveine, que de tão alarmada com a aparição daquele homem caíra desmaiada e só acordara com a entrada do mágico.
- Ah, devia ser Ramil, ele é nossa principal atração indiana. Deixe-me pegar um pouco de água para você, afinal não queremos que morra desidratada – disse o homem finalizando a frase com um risinho.
O mágico estendeu cortesmente um copo d'água para Doveine, contudo ao vislumbrar a mão que lhe era oferecida, soltou o esgar de puro pavor e empurrou o copo diretamente para o chão. Sua voz sumiu de tanto berrar sua repulsa.
Nas mãos de Kranjkar não havia pele sobrepondo o esqueleto e a carne, e somente alguns nervos pulsantes enlaçavam-se como cobras ao longo dos ossos de seus dedos, o vermelho vivo quebrando o branco acinzentado de seu esqueleto desnudo e poroso, o sangue correndo por finas fibras que levavam vida a aquela fragilidade óssea.
- Sua aberração! Deus me abençoe! Deixe-me sair daqui, seu anormal, bastardo, não toque em mim! Volte para o inferno e não saia nunca mais de lá! – berrou a plenos pulmões Doveine, fazendo o sinal da cruz inúmeras vezes num frenesi desvairado. Sentiu tudo girar ao seu redor. Uma ânsia de enjoo subiu a sua garganta, fazendo-a vomitar no colchão a sua frente.
- Sua imunda! Vou perdoar o que você disse, porque sei que não estava completamente sã quando me ofendeu, correto? – sibilou ameaçadoramente o mágico, os ossos de sua mão fechando-se em torno de uma adaga que ele levava junto à cintura. – Ou você pode descobrir que sei muito mais do que mágicas.
- O que vocês irão fazer comigo?
- Vou torná-la uma estrela. Há tempos que procuramos uma dançarina à altura de nossa companhia circense, contudo nunca achamos uma digna. Elas sempre acabam cometendo atos estúpidos, suicidando-se com pedaços de vidro nas jugulares ou comendo alimentos podres até morrerem de infecção. O que é um absurdo, pois não têm motivos para isso. Mas você, minha querida Doveine, será uma pequenina diva e todos a adorarão – o brilho obsessivo no olhar de Kranjkar apavorou ainda mais a jovem. - Será uma doce bailarina.

A escuridão já havia se apoderado das paisagens desérticas e vazias do campo. O vento gélido que soprava livremente por entre as tendas retraia os músculos dos circenses, principalmente daqueles que tinham menos direitos e jantavam ao ar livre, em grandes tábuas sob tijolos improvisadas como mesas.
Na tenda rosa, Doveine tremia de frio, seu corpanzil magro sacolejava a cada rajada de vento mais forte que adentrava por baixo do tecido de sua armação. Aramburu apareceu segurando uma tigela cujo odor fétido infestou a barraca, e Doveine concluiu que a própria cega deveria ter cozinhado aquela gororoba. Enojada e desiludida com sua situação, a moça atirou a tigela nas costas de Aramburu, quando a mesma saia do recinto.
Com um tenebroso instinto animal a cigana voltou-se em fúria para a direção de Doveine. Sem sequer tatear em meio aos poucos móveis ali dispersos, suas mãos enrugadas não tardaram a fecharam-se em torno do pescoço fino da jovem. Engasgando em sua própria saliva, a mulher tentou empurrar o corpo gordo da cigana, mas nem o pânico aumentou suas fracas forças. Desesperada, ela esticou o braço e enfiou seus dedos no olho da velha, empurrando sua grossa moeda de ouro para o fundo do buraco da órbita.
Aramburu urrou de agonizante dor, seus dedos lutando para tirar sua tão adorava moeda daquele espaço, que agora latejava inflamando sua pálpebra molenga. As unhas compridas da cigana arranhavam num frenesi desesperado a mucosa de sua órbita, também fazendo o sangue quente jorrar. Aproveitando a distração de Aramburu, a jovem saiu correndo desembestada barraca afora.
O que seguiu a fuga de Doveine foi um caos infernal: a cigana ao escutar os passos da moça em correria berrou a plenos pulmões o acontecido, alertando o restante dos circenses, que saíram cada um para um lado conveniente a fim de capturar Doveine.
Tendo a penumbra e a sombria ventania contra si, o corpo fragilizado da moça capengava por entre barracas, mesas e cadeiras do circo, cujas sombras da tenda principal, onde aconteceriam os espetáculos, projetava-se fantasmagoricamente sobre as armações menores, escurecendo ainda mais os lugares por onde Doveine tentava achar uma brecha para escapar daquele inferno.
E parecia uma maldição que o próprio que havia lhe invitado para esse seu novo destino, fosse o mesmo que o selaria: uma figura esguia projetou-se silenciosamente das sombras e parou em sua frente, seu casacão negro balançando contra o vento. E quando Kranjkar estendeu sua mão para ajudar Doveine a sair de um buraco na terra onde havia se escondido, a luz da lua iluminou os ossos de seus dedos, o branco intenso faiscando seus contornos em frente aos apavorados olhos da mulher. E foi como se a própria morte tivesse vindo buscar Doveine, injusta e apressada sobre aquela doentia palidez que o luar insistia em clarear. A moça desistiu de lutar no instante que os ossos de Kranjkar contornaram seu pulso fino, a pondo de pé e envolvendo seus ombros no que deveria ser uma demonstração de afeição do mágico, contudo que fez o corpo da jovem tremer mais febrilmente, e não em consequência do frio.

Havia sido uma tolice não ter feito isso antes, uma vez que a mulher não tinha mais nenhuma condição de permanecer viva, e sua presença somente resultava em confusões. Kranjkar sabia que encontrariam uma que seria mais fácil de manusear e que Monsieur Serge Tissot acharia de igual valia como a antiga. Ele só precisava fazer tudo com descrição e calma.
Quando o circo havia passado pela Europa um inglês lhe “presenteara” com um vidro de arsênico, e garantiu que surtia efeitos praticamente imediatos. Quando o mágico fez o próprio homem beber o veneno verificou a autenticidade daquela rapidez e sua eficácia.
Saiu de sua espaçosa e organizada carruagem e seguiu para a tenda rosa, seus pés mal tocando a terra do chão temendo acordar algum adormecido. Na silenciosa madrugada só se escutava os pios dos pássaros alheios aquela monstruosidade. O mágico chegou ao local visado sem que ninguém despertasse; sua vítima já estava dormindo profundamente, cansada de todos acontecimentos turbulentos daquele dia. “Eu colocarei fim a sua exaustão”, pensou Kranjkar vestindo a pele de bom samaritano que achava lhe caber.
O mágico sequer teve que forçar a mulher a beber seu conteúdo, pois seu sono era regido pelos ruídos de sua boca aberta. Foi necessário algumas gotas de arsênico para que seu intento fosse alcançado e o líquido escorreu pela sua garganta suavemente, calando para sempre os roncos cavernosos da cigana Aramburu.

Monsieur Tissot pensou em chamar um médico para averiguar a causa da morte da velha cigana, contudo o médico mais discreto de Joannesburg era um velho conhecido seu, um senhor de 70 anos que havia feito o parto de uma circense sua anos atrás, e Serge Tissot estava presente na ocasião. Sendo assim o dono da companhia Le Monde Bizarre achou melhor não correr riscos, ao passo em que os cabelos do médico estavam grisalhos e sua pele coberta de rugas, enquanto Monsieur Tissot mantinha uma assustadora jovialidade. Concluíram que Aramburu devia ter morrido de velhice ou envenenada por alguma das porcarias que ela própria cozinhava.
A trupe circense iniciara a divulgação do espetáculo naquele dia, espalhando pelas redondezas cartazes de cores vibrantes, com pinturas de sorridentes palhaços, trapezistas em suas malhas estampadas e os cartazes mais atuais da companhia. Os mesmos apresentavam um grupo de pequeninas bailarinas com saias de tutu rosa circundando as cinturas magras das mulheres baixinhas, suas feições apresentando uma bizarra felicidade caracterizada por seus sorrisos forçados e os olhos vidrados de terror.
Chegara o momento de Doveine tornar-se a estrela de um dos shows da companhia, e o orgulho de Kranjkar tomaria forma até o final do dia, quando os procedimentos necessários para que a mulher se tornasse uma dançarina estaria concluído. A jovem surpreenderia todo a plateia que marcaria presença nas arquibancadas sombrias do circo nas próximas noites.
Na tenda principal do circo, seis pequenas mulheres ensaiavam passos de ballet. Todas movimentavam-se de modo desengonçado e tosco, e a cada minuto uma delas tombava para o lado, caindo de borco no chão arenoso sujando suas sainhas de tutu. Um assistente do grupo tinha que ajudá-las a se levantar, porque, por alguma razão, ficar ereto parecia ser um verdadeiro sacrilégio para aquelas mulheres. Caretas de absoluto desconforto e dor eram produzidas quando suas pernas tinham que sustentar todo o peso de seus corpos.
Doveine estava sentada em cima de uma cama, em um compartimento onde os circenses escondiam-se do público antes de chegar sua hora de apresentar-se e dos holofotes e luzes iluminares seus rostos. Contudo naquele instante o toldo estava erguido e a moça podia observar as bailarinas ensaiando um show que ela própria faria parte em poucos dias. Mas havia algo errado naquelas mulherzinhas, no modo em que elas caminhavam, na altura de seus troncos comparada a de suas pernas...
- Não se preocupe, o procedimento é muito simples – começou a esclarecer amavelmente Kranjkar, notando a confusão de Doveine ao observar suas futuras companheiras. – Nós serraremos sua perna, mais ou menos, quatro dedos acima de seu pé, de modo com que tenhamos uma região fina para inserir as sapatilhas de ballet e que sua mobilidade seja preservada, sem sua altura continuar sendo um empecilho. Você será nossa bailarina mais bela, mais doce, um verdadeiro encanto para a plateia. Se você desejar podemos enviar seus pés para a padaria do seu pai, acredito que ele achará uma boa recordação da sua linda filhinha...
E então Doveine percebeu uma marcação que havia sido feita em suas duas pernas com tinta, na região acima de seu pé descrita pelo mágico. Pousando em um canto da tenda estava uma afiada serra, seus dentes virados para frente permitindo que a moça os vislumbrasse com tanta clareza que podia senti-los rasgando-lhe a pele e estraçalhando seus músculos. Seu coração disparou em batidas desesperadas, a imaginação de seus ossos se quebrando ao entrar em contato com aquela ferramenta... e o sangue lhe desceu da cabeça, empalidecendo-lhe de tal forma que ela sentia-se sem vida, morta pela angustia acumulada que lhe eclodiu na garganta ao percebeu seu fatídico destino.
Os berros de Doveine foram escutados por todos circenses que terminavam os preparativos para a abertura do circo nos próximos dias, o que fez a figura de Monsieur Tissot voltar-se contra o histerismo da moça. O Mestre lançou-lhe um olhar de profundo desprezo e fechou sua mão no cabo da serra, empunhando no alto a ferramenta com firmeza. O dono do circo mandou Kranjkar descer o toldo da tenda e pegar um vidro de éter. Doveine não compreendeu nada, contudo gritou ainda mais alto e o excesso de lágrimas a cegou. Antes de contorcer-se e desmaiar sob a cama, ela ouviu a voz grave de Serge Tissot ordenando:
- Quieta! Não vê que suas colegas estão ensaiando

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